O protocolo de Jackson e Pollock é um dos caminhos mais conhecidos para transformar dobras cutâneas em percentual de gordura, e também um dos que mais geram conta errada. As dobras você mede em segundos. A fórmula tem coeficientes com até oito casas decimais, um termo ao quadrado, uma versão para cada sexo e ainda uma conversão no final. Basta inverter dois dígitos de uma medida para o resultado andar dez pontos.
A técnica de pinçamento, a preparação do paciente e os cuidados com o instrumento estão no nosso guia de como usar o adipômetro. Este texto começa onde aquele termina: quais dobras cada versão do protocolo usa, onde fica cada ponto, as fórmulas completas e um exemplo calculado do começo ao fim, com números que você pode conferir na calculadora.
O que o protocolo de Jackson e Pollock calcula
Jackson e Pollock publicaram as equações para homens em 1978 e, junto com Ward, as equações para mulheres em 1980. Elas são chamadas de equações generalizadas porque foram construídas para funcionar numa faixa ampla de idade e de gordura corporal, em vez de servir a um grupo específico, como atletas de uma modalidade.
Para isso, a fórmula considera três elementos: a soma das dobras, essa soma elevada ao quadrado e a idade. O termo ao quadrado existe porque a relação entre dobras e densidade corporal não é uma reta: conforme a soma cresce, cada milímetro a mais altera um pouco menos a densidade. A idade entra porque, com o passar dos anos, uma parte maior da gordura deixa de ficar sob a pele, e a mesma soma de dobras passa a representar mais gordura total.
Um detalhe que costuma passar despercebido: o resultado da equação não é o percentual de gordura, e sim a densidade corporal. O percentual só aparece depois de uma segunda fórmula, a de Siri ou a de Brozek. São duas contas em sequência, e as duas precisam estar certas.
3 ou 7 dobras: como escolher a versão
O protocolo tem duas versões. A de 7 dobras usa os mesmos pontos para homens e mulheres; a de 3 dobras muda os pontos conforme o sexo.
- Homens, 3 dobras: peitoral, abdominal e coxa.
- Mulheres, 3 dobras: tricipital, suprailíaca e coxa.
- Homens e mulheres, 7 dobras: peitoral, axilar média, tricipital, subescapular, abdominal, suprailíaca e coxa.
A versão de 3 dobras é mais rápida, pede menos pinçamentos e expõe menos o corpo do paciente, o que pesa numa primeira consulta ou numa agenda apertada. A de 7 dobras dá mais trabalho, mas cobre tronco e membros e dilui o erro de medição: numa soma de sete pontos, um milímetro fora do lugar pesa menos no total do que numa soma de três.
Não existe versão certa em absoluto. Existe a versão que você consegue executar com consistência naquele paciente, consulta após consulta. E aqui está a regra que mais importa no protocolo inteiro: escolhida a versão, ela não muda durante o acompanhamento. As duas estimam valores diferentes para a mesma pessoa, então trocar de 3 para 7 dobras no meio do caminho cria uma variação que não aconteceu no corpo. O exemplo mais abaixo mostra isso em números.
Onde fica cada ponto anatômico
As descrições abaixo são as mais usadas com este protocolo, sempre do lado direito do corpo e com o paciente em pé e relaxado. Alguns manuais descrevem certos pontos de outro jeito: a direção da dobra axilar média e a distância da abdominal em relação ao umbigo variam entre referências. Se você aprendeu por outra descrição, tudo bem. O que não pode é alternar entre elas.
- Peitoral: dobra diagonal, na linha entre a prega axilar anterior e o mamilo. Nos homens, na metade dessa distância; nas mulheres, a um terço dela, mais perto da axila.
- Axilar média: dobra vertical sobre a linha axilar média, na altura do processo xifoide do esterno.
- Tricipital: dobra vertical na face posterior do braço, no ponto médio entre o acrômio e o olécrano, com o braço solto ao lado do corpo.
- Subescapular: dobra diagonal, em ângulo de cerca de 45 graus, 1 a 2 cm abaixo do ângulo inferior da escápula.
- Abdominal: dobra vertical, cerca de 2 cm à direita da cicatriz umbilical.
- Suprailíaca: dobra diagonal, logo acima da crista ilíaca, acompanhando a inclinação natural do osso, na altura da linha axilar anterior.
- Coxa: dobra vertical na face anterior da coxa, no ponto médio entre a prega inguinal e a borda superior da patela.
Marque todos os pontos com lápis dermográfico antes de começar. Procurar o ponto de novo a cada repetição é um jeito fácil de somar erro sem perceber.
As fórmulas de Jackson e Pollock, versão por versão
Em todas as equações, a soma é em milímetros e a idade em anos completos. Para montar a soma, use a média das medidas de cada ponto, depois das repetições.
Da soma das dobras à densidade corporal (DC)
Homens, 3 dobras (peitoral + abdominal + coxa):
DC = 1,10938 - (0,0008267 x soma) + (0,0000016 x soma²) - (0,0002574 x idade)
Mulheres, 3 dobras (tricipital + suprailíaca + coxa):
DC = 1,0994921 - (0,0009929 x soma) + (0,0000023 x soma²) - (0,0001392 x idade)
Homens, 7 dobras:
DC = 1,112 - (0,00043499 x soma) + (0,00000055 x soma²) - (0,00028826 x idade)
Mulheres, 7 dobras:
DC = 1,097 - (0,00046971 x soma) + (0,00000056 x soma²) - (0,00012828 x idade)
Da densidade ao percentual: Siri ou Brozek
Com a densidade corporal em mãos, a conversão para percentual de gordura usa uma destas duas fórmulas:
Siri: % de gordura = (495 / DC) - 450
Brozek: % de gordura = (457 / DC) - 414,2
As duas partem do mesmo modelo, que divide o corpo em massa gorda e massa livre de gordura e assume uma densidade fixa para cada uma. Entre 10% e 35% de gordura, a diferença entre elas fica abaixo de 1,5 ponto percentual, e cresce conforme o percentual sobe. Assim como a versão do protocolo, a conversão escolhida se mantém ao longo do acompanhamento.
Exemplo prático: o cálculo da Juliana, do adipômetro ao percentual
Juliana tem 30 anos e vai ser avaliada pelo protocolo de 3 dobras para mulheres, com conversão por Siri. Depois de medir cada ponto duas vezes e tirar a média, os valores ficaram assim: tricipital 18 mm, suprailíaca 16 mm e coxa 26 mm.
1. Soma das dobras:
18 + 16 + 26 = 60 mm (e 60² = 3.600)
2. Densidade corporal:
1,0994921 - (0,0009929 x 60) + (0,0000023 x 3.600) - (0,0001392 x 30)
1,0994921 - 0,059574 + 0,00828 - 0,004176 = 1,0440
3. Percentual de gordura por Siri:
(495 / 1,0440) - 450
474,1 - 450 = 24,1%
Se a conversão escolhida fosse Brozek, a conta seria (457 / 1,0440) - 414,2 = 23,5%. Mesma paciente, mesmas dobras e 0,6 ponto de diferença só pela fórmula de conversão.
O que muda o resultado sem mudar o corpo
Agora, três variações da mesma avaliação. Nenhuma representa mudança real na composição corporal da Juliana, e todas mexem no número final.
- Trocar a versão do protocolo. Avaliada pelas 7 dobras (peitoral 12, axilar média 14, tricipital 18, subescapular 16, abdominal 24, suprailíaca 16 e coxa 26, soma de 126 mm), o resultado por Siri seria 24,7%. Se essa troca acontecesse entre uma consulta e outra, pareceria que ela ganhou gordura.
- Mudar a idade. Com a mesma soma de 60 mm, uma paciente de 45 anos teria 25,1%. Por isso a idade entra sempre como a do dia da avaliação, e por isso também não dá para comparar duas pacientes de idades diferentes só pela soma das dobras.
- Inverter dois dígitos. Se a coxa for anotada como 62 mm em vez de 26 mm, a soma vai para 96 mm e o resultado salta para 34,7%. Dez pontos a mais por um erro de anotação, e nada na conta avisa que algo está errado.
O caminho inverso também vale. Se no retorno a soma da Juliana cair para 52 mm, com a mesma versão, a mesma conversão e a mesma técnica, o percentual vai para 21,5%. Essa é a comparação que tem valor clínico, e ela só é possível porque todo o resto ficou igual.
Quando o protocolo de Jackson e Pollock não é a melhor escolha
Equação generalizada não quer dizer equação universal. Há situações em que vale considerar outro caminho:
- Idade fora das amostras originais. As equações foram desenvolvidas com adultos: homens de 18 a 61 anos e mulheres de 18 a 55. Para crianças e adolescentes existem equações próprias, como as de Slaughter. Acima dessas idades, a premissa da fórmula se afasta do paciente, e vale discutir outro método, como o protocolo de Durnin e Womersley, cuja amostra ia até 72 anos.
- Obesidade importante. Dobras muito espessas são difíceis de pinçar, podem passar da abertura máxima do adipômetro e perdem reprodutibilidade. Circunferências e outros métodos de avaliação tendem a funcionar melhor nesses casos.
- Atletas. A massa livre de gordura de atletas pode fugir da média da população geral. Existem equações desenvolvidas especificamente para esse público, como a de Evans.
Mesmo quando o percentual estimado não é confiável, a soma das dobras em milímetros, medida sempre nos mesmos pontos, ainda mostra tendência sem depender de fórmula nenhuma, desde que seja possível pinçar com segurança.
Aplicação prática: o roteiro da próxima avaliação
- Decida antes de medir. Versão do protocolo (3 ou 7 dobras) e conversão (Siri ou Brozek), registradas junto dos dados do paciente para valer em todas as consultas.
- Marque os pontos do lado direito, com o paciente em pé e relaxado.
- Faça o circuito completo pelo menos duas vezes, passando por todos os pontos antes de repetir. Se as medidas de um ponto não baterem, faça uma terceira.
- Confira cada dobra contra a consulta anterior antes de calcular. Um ponto que dobrou de valor enquanto os outros ficaram estáveis quase sempre é erro de anotação, não mudança no corpo.
- Some as médias e aplique a fórmula com a idade do dia. Registre a soma junto do percentual: ela permite comparar consultas mesmo sem fórmula.
- Leve o resultado para o planejamento. A massa livre de gordura que sai do percentual é a base de fórmulas de gasto energético como Katch-McArdle e Cunningham. O restante do cálculo está no guia de como montar um plano alimentar.
Planilha ou software: onde a conta escapa
Dá para fazer tudo isso numa calculadora ou numa planilha, e muita nutricionista faz. O problema não é a dificuldade da conta, é a quantidade de lugares onde ela falha em silêncio: coeficientes com até oito casas decimais, uma equação para cada sexo e versão, a idade que precisa estar atualizada e uma conversão que tem de ser sempre a mesma. Uma célula apontando para a linha errada, ou a fórmula masculina copiada para uma paciente, e o resultado continua parecendo plausível.
Além disso, a planilha não sabe nada do paciente. Ela não avisa que faltou medir a subescapular, não lembra qual versão você usou na consulta passada e não diz que aquela paciente de 58 anos está fora da faixa para a qual a equação foi publicada.
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Conclusão: no Jackson e Pollock, consistência vale mais que casas decimais
O protocolo de Jackson e Pollock não é difícil. Ele é detalhista. O pinçamento se aprende com prática, os pontos anatômicos se fixam depois de algumas avaliações e as fórmulas cabem numa folha. O que separa uma avaliação útil de um número solto é manter tudo igual entre as consultas: a mesma versão, os mesmos pontos, a mesma conversão e a idade certa.
Com isso resolvido, a variação que aparece no retorno passa a significar alguma coisa, e é essa variação que orienta a conduta.
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